“Estudar a linguagem é a forma de entender a cultura, de compreender o homem em sua marcha sobre a Terra.” — José Luiz Fiorin, linguista
Em 2009, o escritor português José Saramago fez um comentário polêmico sobre o Twitter, até então uma rede social com poucos anos de existência. O limite de caracteres da plataforma era, segundo ele, sintoma de uma regressão fatídica: “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até ao grunhido.”
Embora fosse uma hipótese assustadora, aquele comentário tinha uma lógica interna difícil de refutar: se o meio comprime a mensagem, a mensagem comprime o pensamento: menos palavras, menos estrutura, menos capacidade de articular coisas complexas.
Corta para 2026.
Pesquisas recentes sobre comportamentos de busca com IAs generativas mostram algo aparentemente contraintuitivo: o número de palavras que as pessoas estão usando para formular suas perguntas aumentou significativamente em relação aos anos anteriores. As buscas e os pedidos feitos com as IAs chegam a ter até 7 vezes mais termos do que as pesquisas tradicionais.
Ou seja, contrariando a previsão do Saramago, não estamos usando menos palavras na nossa existência digital. Estamos usando mais. Mas o que pode estar por trás desse fenômeno?
Uma hipótese: o nosso trabalho cognitivo está sofrendo um deslocamento.
Pense no uso que você tem feito da IA: é possível que você já tenha percebido que muitas vezes se gasta mais energia mental e vocabulário para conseguir ser claro e obter o resultado que você quer do que se gastaria numa busca convencional. Ou, em alguns casos, do que levaria para simplesmente executar a tarefa você mesmo. E muitas vezes usar mais palavras não se traduz necessariamente em melhores resultados.

A questão é que, mesmo que você use a IA para obter um resultado rápido, o esforço e a energia mental não somem completamente, mas se concentram em outro lugar: na formulação, ou seja, no prompt, na pergunta ou na descrição mais precisa do problema. Isso significa que o resultado pode até chegar em segundos, mas, para chegar bem, ele depende de um mix de senso crítico, boas referências e articulação clara. Um pensar sobre a qualidade do próprio pensamento.
Isso tem um nome no campo cognitivo: metacognição. É quase como um “pensar em voz alta”, mas agora com uma ferramenta interlocutora construída inteiramente em linguagem humana. Se o argumento do Saramago era que o Twitter encurtava o pensamento porque encurtava a linguagem, a IA parece fazer o movimento oposto: ela alonga a linguagem porque reabilita o pensamento como processo.
Diante desse fenômeno, cabe o questionamento: que tipo de cognição a IA está fortalecendo e qual ela pode estar deixando de exigir?
Este é um campo em aberto e estudos sobre o tema seguem em andamento em todo o mundo. Mas a boa notícia é: nós, seres humanos, temos um “borogodó” que a IA dificilmente conseguirá decodificar ou reproduzir integralmente. E ele está justamente na singularidade da linguagem e da expressão humanas.
Para quem trabalha com conhecimento e humanidades, a sofisticação linguística e a compreensão profunda de como a linguagem realmente funciona seguem sendo valiosas precisamente porque os sistemas de IA ainda tropeçam nessas dimensões. Não à toa, recentemente um grupo de pesquisadores composto por especialistas em humanidades (de filósofos e linguistas a estudiosos de ciências da computação) comprovou que a poesia pode ser um ponto cego desses sistemas.
De forma complementar, segundo análise da pesquisadora Shae O. Omonijo, da Universidade de Harvard, esses sistemas não compreendem de verdade o poder flexível, contextual e transformador da linguagem, aquele poder que os humanos exercem de forma instintiva.
Em suma, não regredimos até o grunhido, mas avançamos na direção de outros desafios: a elaboração, a pergunta longa e específica, ao pensamento que precisa ser bem formulado para chegar a ser delegado. E é aqui onde a curadoria de conhecimento se torna uma ferramenta estratégica: cada etapa do nosso método é uma aplicação criteriosa de processos metacognitivos que cruzam ciência, cultura, sociedade e negócios.
Saiba como esse constante processo de pensar sobre o pensamento está na base dos nossos produtos.
Soluções multidimensionais que transformam complexidade em inteligência acionável:
1. Academias Corporativas: Ao longo de mais de uma década, projetos como as Academias de Marketing da Ambev e do Grupo Boticário foram construídos em torno de um princípio: o que diferencia equipes de alto desempenho não é o volume de informação que acessam, mas a capacidade de raciocinar de forma estruturada e criativa diante de problemas complexos, combinando repertório amplo, ferramentas estratégicas e a habilidade de formular bem antes de sair buscando respostas.
2. Observatórios: Esse mesmo raciocínio se aplica a um desafio que está chegando para praticamente todas as organizações: entender o que a IA exige cognitivamente de quem a usa e, mais do que isso, o que ela exige de quem precisa alimentá-la com conhecimento de qualidade. É nesse espaço entre o fenômeno em rápida transformação e as decisões que as organizações precisam tomar agora que os Observatórios da Inesplorato atuam: transformando o monitoramento contínuo em inteligência que as equipes conseguem de fato usar.
3. Estudos Contínuos: Há uma dimensão desse fenômeno que a Inesplorato começou a estudar antes mesmo de as IAs generativas chegarem: a de como os algoritmos estão transformando o próprio ato de comprar. O Consumo Algoritmizado, um dos Estudos Contínuos da Inesplorato, mapeou esse território quando ele ainda era uma hipótese e hoje serve de base para projetos customizados com empresas que precisam entender como preparar produtos, dados e estratégias para um mundo em que algoritmos tomam decisões de compra no lugar de pessoas.
Você reconhece desafios como esses no seu trabalho ou na sua equipe? Vale a reflexão. E se quiser entender como as Academias Corporativas, os Observatórios e Estudos Contínuos da Inesplorato trabalham com isso na prática, é só chamar a gente para um papo.
(Imagem de destaque que ilustra esta publicação: Dizendo quase nada, da artista Lenora de Barros, 1979-2013. Fotografia: Fabiana de Barros e Ruy Teixeira.)
Renato Barreto
Curador de Conhecimento