Mergulhamos profundamente no tema futebol e foi como atravessar um território onde razão, afeto e poder nunca se separam por completo. O futebol não é apenas observado, ele é vivido, projetado, disputado. E talvez por isso siga sendo um dos espaços de experiência coletiva de alta intensidade no Brasil. Embora de forma muito diferente de outros tempos.
-Mas, diferente como?
Vamos lá, o futebol continua central, mas os sentidos que orbitam esse centro estão fragmentados. Não existe mais uma única forma de viver, consumir ou se reconhecer no futebol, o que antes parecia consenso hoje é disputa simbólica, clubes, seleções, jogadores, estilos, causas, estéticas e plataformas competem por atenção e pertencimento. O futebol não desapareceu como referência cultural, ele se multiplicou, e isso mudou muita coisa.
Talvez seja por isso que tanta gente, especialmente agora, parece saber que algo está fora do lugar, mas não exatamente para onde ir. O futebol segue sendo o maior ativo cultural do país, mas já não organiza as pessoas da mesma forma. Esse é o primeiro ponto que, obviamente, deixa a gente meio zonzo.
O segundo aparece quando a gente desce da abstração e olha para as vivências concretas do futebol no Brasil. Viver o futebol nunca foi só sobre o jogo, para quem gosta é também pensar afeto, memória, estética, presença e ausência. É sobre como se torce, onde se torce, com quem se torce. É sobre corpo, voz, imagem, ritual. Existe o fanático, figura clássica que vive o futebol como identidade profunda. E existem também o flâneur*, que atravessa o território do futebol como experiência cultural, quase estética.
Esses afetos não são espontâneos nem neutros, são forjados na repetição, no território, na convivência, no conflito, de modo que o futebol vira repertório visual, emocional e narrativo. Camisas, escudos, músicas, tipografias, arquivos, memes, bastidores tudo comunica. O jogo acontece em campo, mas o sentido se constrói fora dele, num ecossistema que começa muito antes do apito inicial e segue muito depois do fim da partida.
Essa camada social não é acessória, ela organiza a experiência. Classe, território, raça e pertencimento seguem atravessando o futebol, ainda que nem sempre de forma explícita. Estão nas arquibancadas e nas ausências, nos discursos e nos silêncios. Como todo fenômeno de massa, o futebol também sofre interferências políticas, diretas ou indiretas, que tensionam sua capacidade de existir apenas como uma dimensão deslocada das demais. Não é o centro da análise, mas é parte do contexto e ignorar isso empobrece qualquer leitura minimamente honesta.
A terceira tensão aparece quando voltamos ao jogo em si, esse espetáculo que todo mundo tenta extrair o máximo de suco possível. Mais semanas de transmissão, mais países envolvidos, promessas de novos públicos, narrativas que começam muito antes do campeonato e seguem depois dele. O futebol se consolida como um grande evento de entretenimento do mundo. Mas aqui está o ponto-chave: o jogo, sozinho, já não garante pertencimento nem relevância cultural.
A narrativa acontece antes, durante e depois dos 90 minutos, mas o futebol, vamos insistir, não se sustenta mais apenas como competição. Ele precisa atravessar a ilusão de que ainda é, por si só, um território unificador. Se hoje ele é um campo de disputa simbólica, estética e cultural, só quem entende isso consegue operar com inteligência neste imenso universo.
Chamar a atenção para esses traços se torna ainda mais relevante quando olhamos para o horizonte muito próximo: a Copa do Mundo masculina de 2026 e a Copa do Mundo feminina de 2027 (no Brasil) que recolocam o futebol no centro da cena global e intensificam essas disputas simbólicas, narrativas e comerciais.
O que levamos desses estudos (infelizmente) não foi um manual com respostas fechadas, na verdade tem mais a ver com uma mudança de lente. Entender o futebol hoje não é dominar o jogo. É entender o momento. E aceitar que, para seguir sendo central, o futebol precisa ser lido com mais cuidado, mais escuta e menos aquela nostalgia fácil.
Na Inesplorato, nosso trabalho parte justamente dessa escuta atenta do tempo. Investigamos fenômenos culturais complexos, como o futebol, para ajudar marcas e organizações a entender não apenas onde está, mas como se posicionar em contextos simbólicos em constante transformação.
*O termo flâneur tem origem na literatura francesa do século XIX, especialmente em Baudelaire, e refere-se a um indivíduo que percorre a cidade de forma despreocupada, observando o ambiente urbano e seus detalhes sem um objetivo específico. Na sociologia do esporte, Richard Giulianotti utiliza o conceito para descrever um tipo de torcedor contemporâneo, caracterizado por um consumo mais distante e cosmopolita do esporte, sem vínculos profundos ou duradouros com um único clube.